As evidências sobre a história da República Centro-Africana provêm da arqueologia, da memória oral e comunitária, dos arquivos coloniais, dos registros estatais posteriores a 1960 e de documentos das Nações Unidas. As fontes escritas pré-coloniais são escassas, a datação arqueológica e a cobertura dos sítios são desiguais, e o acesso a arquivos ou locais de pesquisa é difícil em áreas afetadas por conflitos. Por isso, depoimentos orais e memórias locais são evidências essenciais, embora as fontes possam preservar interpretações diferentes e concorrentes. As pessoas vivem há muito tempo em todo o território. Evidências arqueológicas indicam agricultura, cerâmica, primeiros trabalhos com ferro e paisagens megalíticas em partes da região. Antes do domínio colonial, sociedades de agricultores móveis, pescadores, caçadores, coletores e pastores estavam conectadas por rotas de intercâmbio do Ubangi, do lago Chade e da bacia do Congo. Chefias, autoridades de linhagem e alianças mutáveis moldavam o poder local. No início da era moderna, áreas do norte e do leste estavam ligadas a Darfur, Wadai e Bahr-el-Ghazal por meio do comércio, da migração e de incursões para captura de pessoas escravizadas, enquanto as áreas ocidentais e meridionais se conectavam às redes Ubangi-Congo. Polidades Zande e Bandia, sultanatos e outras autoridades locais desenvolveram-se em diferentes regiões. Incursões, deslocamentos forçados e rupturas demográficas contribuíram para a fragmentação regional; o território não formava um bloco político ou étnico único. Bangui foi fundada em 26 de junho de 1889. A França estabeleceu controle sobre Haut-Oubangui em 1894 e criou a colônia de Ubangi-Shari em 29 de dezembro de 1903. Vínculos administrativos com o Chade vieram em 1906, e Ubangi-Shari passou a integrar a África Equatorial Francesa em 1910. Mudanças de fronteira em 1911 afetaram as ligações com os Camarões alemães e a bacia do Congo. Empresas concessionárias e administradores coloniais impuseram impostos por pessoa, carregamento de mercadorias, cultivo forçado e trabalho forçado, enquanto extraíam borracha, marfim, algodão e madeira. A administração permaneceu pouco presente fora dos principais postos, e a coerção e a violência eram generalizadas. A resistência Kongo-Wara de 1928–31, especialmente entre comunidades Gbaya, opôs-se às exigências coloniais, embora a participação e as motivações locais variassem. Ubangi-Shari tornou-se território ultramarino em 1946. Barthélemy Boganda tornou-se naquele ano seu primeiro deputado na Assembleia Nacional Francesa, fundou o movimento MESAN em 1949 e promoveu a mobilização anticolonial, cooperativas camponesas e um projeto pan-africano chamado Estados Unidos da África Latina. Após a morte de Boganda em um acidente aéreo perto de Boda, em 29 de março de 1959, David Dacko o sucedeu. A República Centro-Africana tornou-se independente em 13 de agosto de 1960 e ingressou nas Nações Unidas em 20 de setembro de 1960, mantendo fronteiras em grande parte herdadas da administração colonial. Dacko centralizou o poder e estabeleceu um regime de partido único. Jean-Bédel Bokassa tomou o poder no golpe de 31 de dezembro de 1965 e 1º de janeiro de 1966, tornou-se presidente vitalício em 1972, proclamou o Império Centro-Africano em 1976 e foi coroado Bokassa I em 4 de dezembro de 1977. A repressão a estudantes e alunos entre janeiro e abril de 1979 contribuiu para sua derrubada na Operação Barracuda, em 20 de setembro de 1979, e para a restauração de Dacko. O governo de Bokassa continua associado à ditadura, à violência e ao espetáculo político, enquanto narrativas sobre infraestrutura e soberania também fazem parte da memória pública. André-Dieudonné Kolingba tomou o poder em um golpe em 1º de setembro de 1981 e manteve o governo militar e de partido único. A política multipartidária expandiu-se durante os anos 1990, e Ange-Félix Patassé venceu a eleição presidencial de 1993. Motins em Bangui em 1996 e 1997 levaram aos Acordos de Bangui, de 25 de janeiro de 1997, seguidos pela missão regional MISAB e pela missão MINURCA das Nações Unidas, de 15 de abril de 1998 a 15 de fevereiro de 2000. Uma tentativa de golpe em 2001 e a rebelião de François Bozizé em 2002–03 precederam a tomada do poder por Bozizé, em 15 de março de 2003. Uma nova Constituição veio em 2004 e eleições em 2005, mas rebeliões no norte e no leste, envolvendo grupos como UFDR, CPJP e CPSK, continuaram. Os esforços de paz e desarmamento de 2007 a 2009 permaneceram incompletos. A ofensiva Séléka começou no fim de 2012, e Michel Djotodia tomou Bangui em 24 de março de 2013, após a fuga de Bozizé. A Séléka foi dissolvida, enquanto a mobilização Anti-balaka e atrocidades recíprocas causaram deslocamentos generalizados. Djotodia renunciou em 10 de janeiro de 2014, e Catherine Samba-Panza liderou uma transição apoiada pela MISCA e pela Operação Sangaris da França. As Nações Unidas autorizaram a MINUSCA em 10 de abril de 2014, e a MINUSCA substituiu a MISCA em 15 de setembro de 2014. Uma nova Constituição foi adotada em 2015, e Faustin-Archange Touadéra foi eleito em 2016. A construção da paz e o desarmamento continuaram após 2016, mas a autoridade governamental permaneceu fraca fora de Bangui. O Governo e catorze grupos armados assinaram o Acordo Político para a Paz e a Reconciliação na República Centro-Africana, conhecido como APPR-RCA, em 6 de fevereiro de 2019. O Roteiro Conjunto de Luanda veio em 16 de setembro de 2021. Uma ofensiva CPC começou no fim de 2020, e Touadéra foi reeleito em 27 de dezembro de 2020. Persistiram conflitos, deslocamentos e alegações de violações dos direitos humanos, com atores de segurança regionais e externos influenciando os resultados. Em 2023, houve um referendo constitucional em 30 de julho e a Constituição da Sétima República foi promulgada em 30 de agosto; as mudanças nos limites de mandato e no poder executivo continuam contestadas. Eleições presidenciais, legislativas, regionais e municipais simultâneas foram realizadas em 28 de dezembro de 2025, com novas eleições em 26 de abril de 2026. Antes disso, eleições locais haviam ocorrido apenas em 1988. A UPC e a 3R voltaram ao processo do APPR em 19 de abril de 2025, e o MPC chegou a um acordo em 19 de novembro de 2025. A MINUSCA continua apoiando os esforços de paz, as eleições, o desarmamento e a extensão da autoridade estatal, enquanto os ganhos de segurança permanecem desiguais e a guerra no Sudão afeta o norte e o leste. As interpretações da história centro-africana não podem ser reduzidas a uma explicação simples de conflito entre cristãos e muçulmanos ou entre grupos étnicos. Fronteiras coloniais, extração coerciva, legados de incursões para captura de pessoas escravizadas, migração, governo personalista, inclusão regional desigual, disputas por terra e transumância, interesses comerciais e minerais, guerras transfronteiriças e atores externos interagem em diferentes períodos. Séléka e Anti-balaka eram movimentos internamente diversos, não blocos étnicos unificados. Boganda é lembrado como fundador e pan-africanista. Kongo-Wara é lembrada como resistência anticolonial, mas as interpretações divergem entre leituras proféticas ou messiânicas e relatos centrados na autodefesa das aldeias. Narrativas oficiais, memórias orais e comunitárias, narrativas religiosas e partidárias e depoimentos de vítimas podem divergir; por isso, é preciso comparar cuidadosamente a fonte, a data, o propósito e a perspectiva de cada relato.
História na República Centro-Africana
A história da República Centro-Africana reflete migrações de longa duração, intercâmbios regionais, coerção colonial, golpes de Estado, conflitos armados e esforços de construção da paz. O território abrigava sociedades e autoridades diversas antes do domínio francês; nenhum Estado antigo ou medieval único governou a área dentro das fronteiras atuais. Desde a independência, em 1960, o poder político, as desigualdades regionais, os conflitos transfronteiriços e as intervenções internacionais moldaram repetidamente o desenvolvimento do país.
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